Deus, permaneça comigo quando a hora mais escura vier sobre mim, e quando o amanhã parecer uma eternidade.
Não permitas que meus pés vacilem, nem que eu caminhe em direção ao abismo eterno.
I –
1. Havia uma mulher na terra de Uz,
cujo nome era Lilith; e era esta mulher íntegra, reta e temente a Deus e
desviava-se do mal.
2. E aconteceu que numa tarde Lilith
se levantou do seu leito, e passando por um vale de cânticos e vinhos sublimes,
foi abordada por um jovem; e era este jovem mui formoso à vista.
3. O jovem falou doces palavras ao
ouvido de Lilith, que instantaneamente se apaixonou e se entregou ao moço,
dizendo:
4. Beije-me ele com os beijos da sua
boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho.
5. Suave é o aroma dos teus
ungüentos; como o ungüento derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam.
6. Eu sou morena, porém formosa, ó
filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão.
7. Não olheis para o eu ser morena,
porque o sol resplandeceu sobre mim; os filhos de minha mãe indignaram-se
contra mim, puseram-me por guarda das vinhas; a minha vinha, porém, não
guardei.
8. O meu amado fala e me diz:
“Levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.
9. Quão formosos são os teus pés nos
sapatos, ó filha do príncipe! Os contornos de tuas coxas são como jóias,
trabalhadas por mãos de artista.
10. O teu umbigo como uma taça
redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como montão de trigo, cercado de
lírios.
11. Os teus dois seios como dois
filhos gêmeos de gazela.
12. O teu pescoço como a torre de
marfim; os teus olhos como as piscinas de Hesbom, junto à porta de Bate-Rabim;
o teu nariz como torre do Líbano, que olha para Damasco.
13. A tua cabeça sobre ti é como o
monte Carmelo, e os cabelos da tua cabeça como a púrpura; o rei está preso nas
galerias.
14. A tua estatura é semelhante à
palmeira; e os teus seios são semelhantes aos cachos de uvas.
15. Subirei à palmeira, pegarei em
seus ramos; e então os teus seios serão como os cachos na vide, e o cheiro da
tua respiração como o das maçãs.
16. E a tua boca como o bom vinho para
o meu amado, que se bebe suavemente, e faz com que falem os lábios dos que
dormem.
17. Porque eis que passou o inverno; a
chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra, o
tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra.
18. A figueira já deu os seus figos
verdes, e as vides em flor exalam o seu aroma; levanta-te, meu amor, formosa
minha, e vem.
19. Pomba minha, que andas pelas
fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me a tua face, faze-me ouvir
a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa”.
20. O meu amado é meu, e eu sou dele;
ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
21. De noite, em minha cama, busquei
aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei.
22. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a
cidade;pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha
alma;busquei-o, e não o achei.
23. Acharam-me os guardas, que
rondavam pela cidade;eu lhes perguntei: Vistes aquele a quem ama a minha alma?
24. Eu abri ao meu amado, mas já o meu
amado tinha se retirado, e tinha ido; a minha alma desfaleceu quando ele falou;
busquei-o e não o achei, chamei-o e não me respondeu.
25. Acharam-me os guardas que rondavam
pela cidade; espancaram-me, feriram-me, tiraram-me o manto os guardas dos
muros.
26. Conjuro-vos, ó filhas de
Jerusalém, que, se achardes o meu amado, lhe digais que estou enferma de amor.
27. Até que refresque o dia, e fujam as sombras,
volta, amado meu; faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os
montes de Beter.
II-
1. Apareceu então Satanás perante o
Senhor logo após sair o consorte de Lilith de seus aposentos.
2. Então o Senhor disse a Satanás:
Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e
passear por ela.
3. E disse o Senhor a Satanás:
Observaste minha serva Lilith? Porque ninguém há na terra semelhante a ela,
mulher íntegra e reta, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém
a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ela, para a consumir sem causa.
4. Então respondeu Satanás ao Senhor,
e disse: Porventura teme Lilith a Deus debalde?
5. Porventura tu não cercaste de
sebe, a ela, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste
e o seu gado se tem aumentado na terra.
6. Pele por pele, e tudo quanto o
homem tem dará pela sua vida! Por isso estende a tua mão, e
toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.
Estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema
contra ti na tua face.
7. E disse o Senhor a Satanás: Eis
que tudo quanto ela tem está na tua mão; somente contra ela não estendas a tua
mão. E Satanás saiu da presença do Senhor.
8. Então saiu Satanás da presença do
Senhor, e feriu a Lilith de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto
da cabeça, levando-lhe tudo que possuía.
9. E Lilith tomou um caco para se
raspar com ele; e estava assentada no meio da cinza.
10. Depois disto abriu Lilith a sua
boca, e amaldiçoou o seu dia. E Lilith, falando, disse:
11. Pereça o dia em que nasci, e a
noite em que se disse: Foi concebida uma mulher!
12. Converta-se aquele dia em trevas;
e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz.
13. Contaminem-no as trevas e a sombra
da morte; habitem sobre ele nuvens; a escuridão do dia o espante!
14. Quanto àquela noite, dela se
apodere a escuridão; e não se regozije ela entre os dias do ano; e não entre no
número dos meses!
15. Ah! que solitária seja aquela
noite, e nela não entre voz de júbilo!
16. Amaldiçoem-na aqueles que
amaldiçoam o dia, que estão prontos para suscitar o seu pranto.
17. Escureçam-se as estrelas do seu
crepúsculo; que espere a luz, e não venha; e não veja as pálpebras da alva;
18. Porque não fechou as portas do
ventre, nem escondeu dos meus olhos a canseira.?
19. Por que não morri eu desde a
madre? E em saindo do ventre, não expirei?
20. Por que me receberam os joelhos? E
por que os peitos, para que mamasse?
21. Porque já agora jazeria e
repousaria; dormiria, e então haveria repouso para mim.
22. Como aborto oculto, não existiria;
como as crianças que não viram a luz.
23. Por que se dá luz ao miserável, e
vida aos amargurados de ânimo?
24. Que esperam a morte, e ela não
vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros ocultos;
25. Que de alegria saltam, e exultam,
achando a sepultura?
26. Por que se dá luz ao homem, cujo
caminho é oculto, e a quem Deus o encobriu?
27. Porque antes do meu pão vem o meu
suspiro; e os meus gemidos se derramam como água.
28. Porque aquilo que temia me
sobreveio; e o que receava me aconteceu.
29. Nunca estive tranqüila, nem
sosseguei, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação.
30. Oh! se a minha mágoa retamente se
pesasse, e a minha miséria juntamente se pusesse numa balança!
31. Porque, na verdade, mais pesada
seria, do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido
engolidas.
32. Porque as flechas do Todo-Poderoso
estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se
armam contra mim.
33. Porventura zurrará o jumento
montês junto à relva? Ou mugirá o boi junto ao seu pasto?
34. Ou comer-se-á sem sal o que é
insípido? Ou haverá gosto na clara do ovo?
35. A minha alma recusa tocá-las, pois
são para mim como comida repugnante.
36. Quem dera que se cumprisse o meu
desejo, e que Deus me desse o que espero!
37. E que Deus quisesse quebrantar-me,
e soltasse a sua mão, e me acabasse!
38. Isto ainda seria a minha
consolação, e me refrigeraria no meu tormento, não me poupando ele; porque não
ocultei as palavras do Santo.
39. Qual é a minha força, para que eu
espere? Ou qual é o meu fim, para que tenha ainda paciência?
40. É porventura a minha força a força
da pedra? Ou é de cobre a minha carne?
41. Está em mim a minha ajuda? Ou
desamparou-me a verdadeira sabedoria?
42. Até quando, Senhor, clamarei eu, e
tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?
43. Até quando, Senhor? Acaso te
esconderás para sempre? Arderá a tua ira como fogo?
44. Até quando
consultarei com a minha alma, tendo tristeza no meu coração cada dia? Até
quando se exaltará sobre mim o meu inimigo?
45. Até quando te
esquecerás de mim, SENHOR? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu
rosto?
46. Até quando afligireis a minha
alma, e me quebrantareis com palavras?
47. Até quando não
apartarás de mim, nem me largarás, até que engula a minha saliva?
48. Deitando-me a
dormir, então digo: Quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de
me revolver na cama até à alva
Senhor, até quando verás isto?
Resgata a minha alma das suas assolações, e a minha predileta dos leões;
49. Ah, espada do Senhor! Até quando
deixarás de repousar? Volta para a tua bainha, descansa, e aquieta-te;
50. O que ficou da lagarta, o
gafanhoto o comeu, e o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu, e o que ficou
da locusta, o pulgão o comeu.
51. O campo está assolado, e a terra
triste; porque o trigo está destruído, o mosto se secou, o azeite acabou.
52. Já se consumiram os meus olhos com
lágrimas, turbadas estão as minhas entranhas, o meu fígado se derramou pela
terra.
53. Eu sou aquela que viu a aflição
pela vara do seu furor.
54. Ele me guiou e me fez andar em
trevas e não na luz.
55. Deveras fez virar e revirar a sua
mão contra mim o dia todo.
56. Fez envelhecer a minha carne e a
minha pele, quebrou os meus ossos.
57. Edificou contra mim, e me cercou
de fel e trabalho.
58. Assentou-me em lugares tenebrosos,
como os que estavam mortos há muito.
59. Cercou-me de uma sebe, e não posso
sair; agravou os meus grilhões.
60. Ainda quando clamo e grito, ele
exclui a minha oração.
61. Fechou os meus caminhos com pedras
lavradas, fez tortuosas as minhas veredas.
62. Fez-se-me como urso de emboscada,
um leão em esconderijos.
63. Desviou os meus caminhos, e fez-me
em pedaços; deixou-me assolada.
64. Armou o seu arco, e me pôs como
alvo à flecha, fez entrar nos meus rins as
flechas da sua aljava.
65. Fui feita um objeto de escárnio
para todo o meu povo, e a sua canção todo o dia.
66. Fartou-me de amarguras,
embriagou-me de absinto.
67. Quebrou com cascalho os meus
dentes, abaixou-me na cinza.
68. E afastaste da paz a minha alma;
esqueci-me do bem.
69. Então disse eu: Já pereceu a minha
força, como também a minha esperança no Senhor.
70. Lembra-te da minha aflição e do
meu pranto, do absinto e do fel.
71. Minha alma certamente disto se
lembra, e se abate dentro de mim.
III -
1. Como se escureceu o ouro! Como se
mudou o ouro puro e bom! Como estão espalhadas as pedras do santuário sobre
cada rua!
2. Ao que está aflito devia o amigo
mostrar compaixão, ainda ao que deixasse o temor do Todo-Poderoso.
3. Porque nunca haverá mais lembrança
do sábio do que do tolo; porquanto de tudo, nos dias futuros, total
esquecimento haverá. E como morre o sábio, assim morre o tolo!
4. Por isso odiei esta vida, porque a
obra que se faz debaixo do sol me era penosa; sim, tudo é vaidade e aflição de
espírito.
5. Porque dirão os povos: “como está
sentada solitária aquela cidade, antes tão populosa! Tornou-se como viúva, a
que era grande entre as nações! A que era princesa entre as províncias,
tornou-se tributária!
6. Chora amargamente de noite, e as
suas lágrimas lhe correm pelas faces; não tem quem a console entre todos os
seus amantes; todos os seus amigos se houveram aleivosamente com ela,
tornaram-se seus inimigos.
7. Como cobriu o Senhor de nuvens na
sua ira a filha de Sião! Derrubou do céu à terra a glória de Israel, e não se
lembrou do escabelo de seus pés, no dia da sua ira.
8. Devorou o Senhor todas as moradas de
Jacó, e não se apiedou; derrubou no seu furor as fortalezas da filha de Judá, e
abateu-as até à terra; profanou o reino e os seus príncipes.
9. No furor da sua ira cortou toda a
força de Israel; retirou para trás a sua destra de diante do inimigo; e ardeu
contra Jacó, como labareda de fogo que consome em redor.
10. Armou o seu arco como inimigo,
firmou a sua destra como adversário, e matou tudo o que era formoso à vista;
derramou a sua indignação como fogo na tenda da filha de Sião.
11. Tornou-se o Senhor como inimigo;
devorou a Israel, devorou a todos os seus palácios, destruiu as suas
fortalezas; e multiplicou na filha de Judá a lamentação e a tristeza.
12. E arrancou o seu tabernáculo com
violência, como se fosse o de uma horta; destruiu o lugar da sua congregação; o
Senhor, em Sião, pôs em esquecimento a festa solene e o sábado, e na indignação da sua ira rejeitou com desprezo o rei e o
sacerdote.
13. Rejeitou o Senhor o seu altar,
detestou o seu santuário; entregou na mão do inimigo os muros dos seus
palácios; deram gritos na casa do Senhor, como em dia de festa solene.
14. Intentou o Senhor destruir o muro
da filha de Sião; estendeu o cordel sobre ele, não retirou a sua mão
destruidora; fez gemer o antemuro e o muro; estão eles juntamente enfraquecidos.
15. As suas portas caíram por terra;
ele destruiu e quebrou os seus ferrolhos; o seu rei e os seus príncipes estão
entre os gentios, onde não há lei, nem os seus profetas acham visão alguma do
Senhor.
16. Estão sentados na terra,
silenciosos os anciãos da filha de Sião; lançam pó sobre as suas cabeças,
cingiram sacos; as virgens de Jerusalém abaixam as suas cabeças até à terra.”
IV –
1. Não vos comove isto a todos vós
que passais pelo caminho? Atendei, e vede, se há dor como a minha dor, que veio
sobre mim, com que o Senhor me afligiu, no dia do furor da sua ira.
2. Desde o alto enviou fogo a meus
ossos, o qual se assenhoreou deles; estendeu uma rede aos meus pés, fez-me
voltar para trás, fez-me assolada e enferma todo o dia.
3. O jugo das minhas transgressões
está atado pela sua mão; elas estão entretecidas, subiram sobre o meu pescoço,
e ele abateu a minha força; entregou-me o Senhor nas mãos daqueles a quem não
posso resistir.
4. O Senhor atropelou todos os meus poderosos no meio de mim; convocou contra mim uma
assembléia, para esmagar os meus jovens; o Senhor pisou como num lagar a virgem
filha de Judá.
5. Por estas coisas eu ando chorando;
os meus olhos, os meus olhos se desfazem em águas; porque se afastou de mim o
consolador que devia restaurar a minha alma; os meus filhos estão assolados,
porque prevaleceu o inimigo.
6. Olha, Senhor, porque estou
angustiada; turbadas estão as minhas entranhas; o meu coração está transtornado
dentro de mim, porque gravemente me rebelei; me acabou à espada, em casa está a
morte.
7. Ouviram que eu suspiro, mas não
tenho quem me console; todos os meus inimigos que souberam do meu mal folgam,
porque tu o fizeste; mas, em trazendo tu o dia que apregoaste, serão como eu.
8. Por que te esquecerias de nós para
sempre? Por que nos desampararias por tanto tempo?
9. Converte-nos a ti, Senhor, e
seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes.
10. Mas tu nos rejeitaste totalmente.
Tu estás muito enfurecido contra nós.
11. Poupa a teu povo, ó Senhor, e não
entregues a tua herança ao opróbrio, para que os gentios o dominem; por que
diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?
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