Abriu
os olhos: não era mais uma simples garotinha jazendo nos braços de um Deus tão
humanamente cruel, mas sim uma bela índia, de lábios de mel e cabelos mais
negros que asa da graúna, a repousar a cabeça nas folhas de jandaia próximo ao
rio da tribo.
Precisava
voltar logo, não era mais momento de dormir. Os planetas estavam prestes a se
alinhar, os sacerdotes precisavam de sua delícia divina, a Jurema, para se
comunicarem com seus deuses e pedir bênçãos à terra. Não era cristã mais, nem
precisava de livros sagrados: seus rituais eram sentidos, não pensados, e seu
conhecimento era passado de boca a boca, por várias gerações, à todas as
virgens escolhidas pelos próprios deuses para servi-los. Sim, os deuses
escolhiam suas amadas, e não o contrário. Fora marcada em seu nascimento com um
desenho em sua pele, algo que lembrava a mistura de um dragão com um peixe.
Era
tipicamente filha dos peixes e exatamente perfeita para o culto: dona de uma
extrema sensibilidade, tanto exterior, quanto interior; sonhadora; generosa e
benevolente. A mais pura dentre todas as mulheres da tribo, sem sombra de
dúvida.
Foi
durante a volta para a tribo que escutou um barulho, provavelmente próximo de
março, quando as festividades que reúnem todas as tribos e todos os guerreiros
travam batalhas por um tesouro misterioso, que ela o avistou. Melhor, antes
mesmo que o visse, fugiu do alcance de suas mãos, afinal, quem era aquele
desconhecido que se aproximava com tanta malícia em seus olhos? Surpresa e
assustada, fez o que sabia melhor, acertou-o com o que tinha em mãos e se
afastou com medo de ele tentar nova investida.
Martins
era um dos Morenos espanhóis sem Terras que aqui chegaram; e assim como, um a
um, entraram na terra, Martins sem tê-rra entrava sem aviso na vida de nossa
Ismália. Mesmo com o golpe não reagiu e conquistou o coração de nossa bela
índia desavisada.
Levou-o
para sua tribo, que foi recebido em grande festa. Era um prazer a todos ali ter
em seu meio alguém que fosse filho dos deuses! Depois da grande recepção,
Martins precisava retornar ao seu grupo, o que trouxe grande decepção ao
coração intacto de nossa índia. “Seria saudades da noiva que deixou para trás?”
Não,
o amor de Martins por Ismália era sincero, não. Amaram-se como poderiam, a um
alto preço, mas tudo vale a pena em nome do amor, não? Fugiram dali, casaram-se
e semearam um grande amor, amor que começou doce, mas que trouxe consigo a dor.
Assim
como a lua tem seu lado negro, Martins era um guerreiro, e como valente que
era, precisava de um grande ideal. A vida calma e tranquila ao lado daquela que
prometera seu amor e lealdade não o fascinava mais, a rotina era um longo comercial
chato passando em seus olhos. Com o passar do tempo, entrou em depressão,
admirando fantasmas de suas glórias passadas, de olimpíadas que participou, das
festas da corte, sem dar muita atenção à índia.
Na
primeira oportunidade que teve de voltar ao campo de guerra, não hesitou e
partiu com seus companheiros, deixando Ismália sozinha para trás sem nem ao
menos se despedir dela. Como aviso, fincou uma flecha ao chão, sabendo que,
quando Ismália avistasse, entenderia o sinal de sua partida. Entrelaçou nela
uma violeta, era a flor favorita dos dois.
De
fato, quando a Índia dos lábios de mel foi se banhar no dia seguinte, viu
aquela caixinha em formato de corações flechados, entendeu o significado, e
colocou-se a chorar desesperadamente. Retornava todos os dias, esperando
qualquer contato, qualquer sinal de que seu amado estava retornando ao seu lar,
sem qualquer sucesso. A tristeza preencheu o coração que antes era altar dos
supremos deuses.
Ismália
perdeu, por Martins, sua pureza, sua família, seu propósito. E quando estava
prestes a morrer de saudades pelo marido que havia viajado e demorava a
retornar, com o fruto do amor e da dor em seus braços, teve seu último vislumbre
enlouquecido em vida: imaginou que havia uma torre, e no topo estava seu amado
Martins. E em meio a todo esse sonho, tentou alcança-lo nos céus vendo seu
reflexo no mar; e na fúria de buscar o que tanto lhe fazia falta, alcançou os céus
de seus antepassados.
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