quarta-feira, 17 de julho de 2013

Conto das Mil Faces (Am I Free?) - Parte I

“To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

(Shakespeare)


E lá estava aquele velho castelo, erguido desde os primórdios de sua existência, com suas muralhas imponentes e um Dragão chinês de água guardando seu maior tesouro, em terras tão longínquas, tão baixas, que seria necessário muito esforço de quem quisesse encontrá-lo.
Pelas paredes gélidas formadas de suor e sangue, era possível sentir uma quase inaudível melodia: uma menininha, princesa, fada, ninfeta, a girar e cantar. Cantava coisas que os mortos um dia viram, cantava coisas que o fim do mundo sonhava. Uma menininha que nascera do acaso, sem qualquer aviso prévio: não tinha lugar no mundo, tinha apenas aquele castelo – o mundo devia de ser um lugar muito perigoso para alguém de coração tão puro e singelo.
Desde nova sabia fazer tudo sozinha, nunca tivera ninguém para ensiná-la sobre a vida e sobre a morte, ela apenas existia. Também, dificilmente existiria na Terra pessoa capaz de vencer tantos obstáculos para chegar até ela, muito menos de caráter tão íntegro e tão determinado a transpor limites humanamente intransponíveis. Era preciso ser Deus.
Mas para essa pobre menininha, que viria a ser Deus? Se nunca, nem mesmo seus criadores, que a elevaram do barro, e do sopro de vida, foram capazes de vencer tantas camadas, muito menos seriam capazes de alertá-la sobre os perigos de encarar a face Divina, por mais viciante que ela viesse a ser. Moisés viu apenas as costas e foi suficiente para ficar reluzente por dias. Se ela, pobre mortal descrente, encarasse Deus face a face, provavelmente explodiria em glória. Ele era Perfeito demais para guardar para si mesma. Não, viveria sozinha ali, eternamente. O terço pendurado em sua cama era apenas de enfeite, e a Bíblia, seu livro favorito de contos absurdos que lia para adormecer.
De repente, e não mais que de repente, as muralhas que guardam o castelo começam a estremecer: Deus vem ao encontro da pobre garotinha. O que teria visto o Criador nela? Tão frágil, tão pequena, tão simples, tão pobre, tão solitária? Iria amá-la ou matá-la? Mal sabia ela de sua existência, que diria como agir em sua presença? Decidiu ficar e ver se morreria, de qualquer forma não seria tão ruim assim.
Elohim, o Forte divino; Adonai, sou Tua serva e és meu Mestre; El Elvon, o mais alto; El Roi, tudo vê; El Shaddai, Deus Todo-Poderoso; El Olam, Tu és Eterno; Yahweh, o grande EU SOU.
Deus era eterno, o que significava que Ele não teve início e que a Sua existência jamais iria cessar. Ele era imortal, infinito. imutável, o que queria dizer que Ele não mudaria, por mais que gostaria que isso fosse possível (minha esperança então não seria minha sentença); Deus era, é e sempre será incomparável, o que quer dizer que não há ninguém como Ele em obras ou ser, Ele é inigualável e perfeito. Deus é inescrutável, o que significa que Ele é imensurável, inencontrável, impossível de ser inteiramente entendido. Mas cá estava ele, derrubando toda a minha fortaleza, onipotente que era, apenas para me encontrar em minha pequenez.
‘Em toda sua sabedoria e conhecimento, sabia que não tinha mais motivos pra continuar neste mundo, por isso veio ao meu encontro”, pensou ela. Reine sobre mim, seja soberano.
Poucos minutos após o primeiro estrondo, lá estava ele aos pés da porta da torre mais alta. Se houvesse alguém ali, poderia tocar com as mãos o frio que ela sentia em sua barriga, mas não havia, nem nunca houve. Tremia só pela ideia de finalmente conhecer alguém diferente da imagem que ela via no espelho, ainda mais alguém com tamanha glória.
Abriu a porta da câmara mais secreta de si: era Ele, envolto por uma luz inexplicável, e músicas celestiais, acompanhado de seres de outros mundos. Quando viu aquela pele morena reluzente não pensou duas vezes, e se atirou de corpo e alma para os braços de seu amado. Ele era o Noivo, e ela sua Igreja pessoal.
"Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo."

Cruel, Injusto, Mesquinho, Enganador, Diabo (Acusador), Adversário, Anjo Caído, Ahriman ou Angra Mainyu (espírito mau), Samael (veneno de Deus), Orgulhoso, Teimoso, Autodestrutivo, Invejoso, Tolo, Fraco, Ignorante, Desligado, Sefirot Geburah, Vingativo, Fanático, Cego, Surdo, Louco.

“Ó Lúcifer! Tu te separaste voluntária e desdenhosamente do céu onde o sol se afogava em sua claridade, para sugar com teus próprios raios os campos incultos da noite.
Tu brilhas quando o sol se deita, e teu olhar cintilante precede o despertar do dia.
Tu cais para subir de novo; experimenta a morte para melhor conhecer a vida.
Tu és a gloria dos antigos do mundo, a estrela da tarde para a verdade, a bela Estrela da Manhã.”

Enquanto caia, viu ele levantar uma lâmina em câmera lenta. Não era seu Deus: seu Salvador mouro, na realidade, era seu pior carrasco. Morria ali inocente de qualquer crime. Quis Deus levá-la porque invejou seu coração puro, era deusa ela também, deusa do amor, do zelo e da bondade, tudo que um dia ele nunca foi. Queria, como demônio que era, subir ao seu trono e ser semelhante à Altíssima. Destruiu todas as suas barreiras não por amor, mas pela crueldade que era combustível de seu espírito corrompido.
E já nos últimos segundos de sua vida, ouviu seu Divino Destruidor dizer-lhe: Mene, Mene, Tequel, Ufarsim. Mas a única falta que tinha era de afeto real, que não teve nem mesmo em sua morte.
O anjo decaído é, pois aquele, que desde o princípio recusou amar; ele não ama e é todo o seu suplico; ele não dá, e é sua miséria; ele não sofre, e é seu vazio; ele não morre e é o seu exílio.
Era ela também um anjo quebrado, era ela sua Lilith virginal, sua eterna consorte.


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