Eu encarei a bruxa. Sim, essa mulher horrorosa de rosto arredondado e nariz de vilão Spheniscidaético do Batman (dos filmes bem antigos, assim como eu), que jogou um feitiço neste rio que não o permite virar mar, e que afeta até mesmo a mim, me prendendo nessas águas turbulentas que apesar de todas as condições favoráveis, nunca se acalmam.
Bruxa estúpida que só sabe conversar por letras desconhecidas e inferiores - porque o submundo humano é realmente baixo, já dizia a mestra Exatas - contou-me dos tempos em que ela era dona daquelas terras e aquele rio estava lá apenas para ela. Ardilosa que é, nunca me contou porque as perdeu, mas faz questão de sempre mostrar todas as medalhas que dali um dia recebera. Mas como nem tudo que reluz é ouro e nem todo mal é para a perdição, ela me alertou sobre os perigos residentes nesse afluente e eu, tola e cega, não ouvi.
O vento encantando - ou seria amaldiçoado - que ela me mandou dizia sobre coisas que eu já havia reparado, contudo sem qualquer certeza de que fosse verídico:
"(...) mais uma vez me fazendo de vítima, exagerada e maluca bla bla bla só eu estou enxergando tudo isso não é? (...) fugindo do conflito mais uma vez? Eu tenho medo eu sinto medo eu tenho insegurança eu luto contra isso e (...)"
Ahh, pobre bruxa maldita: antes de ser maga, és humana também, e como humana que somos, por vezes criamos deuses à nossa imagem e semelhança, simplesmente para satisfazer nosso próprio ego. E nós, filhas de Byron e dos Anjos, monstras de escuridão e rutilância, do negro e do rubro, caímos na maior das falácias: acreditar em um Deus que está muito mais preocupado em converter os pagãos e os gentios à sua adoração do que cuidar de sua mais preciosa ovelha. E depois que ela se perde e se afoga no rio, Deus lamenta pelo que poderia ter feito e não fez. Cretino que é nem mesmo é capaz de aceitá-la no paraíso, permite que ela vague pelo mundo como alma penada sem rumo e ainda é capaz de perguntar a ela - perdoe-me pela heresia - na maior cara de madeira: "se precisar de qualquer coisa". Deus não ama seus fiés, ele é idiota e egoísta, como nós. Mas como nos colocamos na posição de submissas e de adoradoras fervorosas, sabemos pelo menos canalizar nossas adorações para o local "certo".
Deus é o criador de todas as coisas, inclusive de tal insegurança. Isso o alimenta, pois inseguras, corremos cada vez mais para sua cruz, e clamamos com lágrimas nos olhos, que para Ele parece ser oferta agradável, como o primogênito perfeito dos cordeiros. Sim, ele nos quer frágeis e fracas, porque é em nossa fraqueza que ele nos faz forte. Diz para nós "Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o SENHOR, teu Deus, é contigo por onde quer que andares." (Josué 1:9), mas logo em seguida nos prova na casa do oleiro e nos quebra feito barro sem qualquer piedade estampada em sua gloriosa face. A indiferença por sua cria me assombra, sinceramente, cara bruxa.
Acho que nossos destinos não serão tão diferentes, bruxa, não pelo menos enquanto sua aura permanecer aqui. Enquanto você continuar a me assombrar, eu irei afundar cada vez mais nas águas gélidas - e tudo que eu queria um banho escaldante, merda - e em breve também serei mais uma pedra no fundo desse rio, pedra de altar e adoração, mas fria como pedra.
E se deu pra entender, então eu também errei...
Ou melhor, errei.. pois essas reticências caminham para o.
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