quarta-feira, 17 de julho de 2013

Conto das Mil Faces (Am I Free?) - Parte 3

Acordou novamente suada. Era um lixo, sentia-se um lixo. Sonhava pela terceira vez que se afogava, despertando no meio da noite com um aperto no peito.
Ao seu lado descansava um homem que ela conhecera muito bem pelas últimas duas horas; e o melhor, pagava bem por seus serviços. Fazia isso praticamente todos os dias, não se importava qual máscara eles utilizavam. Eram todos iguais, todo carentes, todos sexualmente frustrados, suas frígidas esposas eram incapazes até mesmo de ouvi-los em seus momentos de fraqueza. O “felizes para sempre” sempre acabava, e ela estava ali, dando seus últimos minutos de felicidade para mais um homem sem carinho.
Tinha ela todo o amor pra dar, faltava-lhe todo o amor do mundo. Sozinha, suja, tinha dificuldades para achar o seu lugar ao sol e se virava como podia. Parecia que o mundo só funcionava corretamente para ela, já bem dizia o sábio. E quando acabava, voltavam para seus lares de vidro, encenando mais um thriller psicológico que ainda não enjoamos de ver. E ela ficava sozinha em seu próprio mundo.
Mesmo quando saia às ruas, era como se não houvesse ninguém: apesar dos homens cobiçarem curvas tão belas e das mulheres invejarem seu ofício, sentia como se seguisse no nada. Não tinha lugar entre essas pessoas, não pertencia a este mundo. E a paz que ela queria ela só encontrava quando ia pra cama com aqueles homens – e também algumas aventureiras que posteriormente se apaixonavam por ela. Era sua forma de transcender, de sair desse lugar falido.
Cada vez que se ligava a uma nova pessoa, compartilhava um pedaço de si, e nada ganhava. As energias que recebia eram como veneno do escorpião mais letal, mas era ali, durante aquelas horas, durante aqueles pequenos espasmos semelhantes à morte, que se sentia perto de Deus. Melhor, era a própria Vênus encarnada, com toques de Bacco em suas partes íntimas. Ela não fazia sexo, ela era puramente o sexo: tudo nela exalava essa energia, que de tão intensa poderia despertar a kundalini adormecida em toda uma nação.
Em seu quarto, junto com lençóis de seda egípcia, velas, kama sutra, chicotes, óleos aromáticos e preservativos reservas, ela possuía uma pequena caixa de contas que sua mãe havia lhe dado quando era pequena ainda. Pobre mãe, abandonara-lhe tão cedo sem querer, quis Deus que ela aprendesse a vida da forma mais difícil possível.
Foi durante uma dessas tardes quentes olhando o conteúdo secreto de sua caixinha que ele apareceu: alto, forte, moreno, bem afeiçoado, e de um olhar incrivelmente enigmático, era como se por trás daquele homem feito houvesse um menino sedento por novas descobertas.
Ele estava noivo há pouco tempo, mas sentia que ia de mal a pior. A mulher que conhecera não era mais aquela que outrora o encantara, e pra piorar a situação, sabia que ela estava muito envolvida com seu chefe, mas não tinha conseguido arranjar uma forma de provar isso e acabar com essa dor de cabeça. “Mulheres, sempre promíscuas, quando você dá sua vida, elas devoram seu coração”, pensava.
Quando seus olhos repousaram sobre a jovem moça, de pele mulata, seios delicados, cintura fina, quadris largos, e um olhar que o fazia se incendiar todo, vislumbrou em apenas dois segundos todas as possibilidades. Era tudo que ele queria e procurava no mundo, tinha essa sensação dentro si. Alguma coisa naquela moça o atraia incondicionalmente, mas não sabia ao certo dizer o que.
Quanto a ela, aquele era Deus se revelando em sua frente, sem mesmo que tivesse tirado qualquer peça do corpo. Precisava conhecê-lo, invadi-lo, senti-lo por completo pra saber por que se fascinava tanto, e de repente o mundo passava a ter cor, e até mesmo aquela brisa quente fazia-a querer agarra-lo naquele exato instante.
Apresentaram-se, estipulando os limites e regras, e valores, claro. E então começaram a longa dança. Cada toque, cada beijo, cada mordida era como fogo tocando o gelo, nada ficava no lugar. Sentiam como se já tivessem se amado antes, como se seus corpos se encaixassem perfeitamente.
Ali, realizando suas fantasias com uma desconhecida tão familiar sentiu-se completo pelo primeira vez. Nunca alguém o desejou com tal vigor e quis fazer suas loucuras mais insanas sem hesitar. Depois de 3 horas sem parar, descansavam lado a lado exaustos.
A mesma cena se repetiu todas as quintas por mais 4 meses a fio, até o momento em que, investido de coragem, resolveu pedir o fim de seu noivado. ‘Aquela puta que fosse feliz dando o c* pro chefe, se quisesse! Consumiu meu tempo, meu dinheiro e meu amor.’
Livre, poderia se render de vez àquela mulher misteriosa. Amaram-se como nunca se viu neste mundo, amor com gostinho de saudade, e um pouco de confidencialidade. Ela largou seu trabalho e dedicava-se a trabalhos caseiros, até porque, se tentasse se deitar com outra pessoa, sentir-se-ia a pior mulher do mundo, e isso era um novo começo: não queria mais ser lixo, agora era rainha em um mundo totalmente colorido.
O problema da vida é que as estações são muito bem definidas, e depois de todo verão quente, vem o outono para anunciar a chegada do inverno. E numa tarde fria do outono, ele partiu, tinha medo da mulher que ela se tornara. Ela não conseguia entender como ele podia querer ficar fora todos os dias, devia ter outra mulher no caminho. Ele era dela e só dela, e apenas a imagem dele beijar outra mulher levava-a à loucura. Precisava fazer qualquer coisa pra manter essa felicidade que encontrou ao lado dele, e agora que partira, todos os momentos felizes, escorriam lentamente por seus dedos.
Não tinha mais pra onde seguir, uma vez que você conhece o céu, tudo que estiver fora dele vira inferno. As cores e luzes que ele trouxe pra sua vida morreram quando ele partiu. Comer não tinha mais qualquer sentido, qualquer coisa que tocasse suas papilas era como água.
Sem qualquer esperança, decidiu avistar a cidade, quem sabe olhando não o encontraria andando, ou um sinal de onde poderia se humilhar e pedir pra voltar. Olhou, olhou e depois de horas olhando pensou “realmente este mundo mudou. Agora que as cores se foram, não vejo mais as cinzas do que se consumiu mas sim as trevas que me dominam. Meu Deus, sinto sua falta. Por que me deste asas, se depois me lançou ao sol?”
Fechando os olhos, abriu os braços, e do alto de um prédio de 23 andares, se lançou para os braços daquele Deus que conviveu com ela durante os poucos meses em que esteve realmente viva.


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