Acordou
novamente suada. Era um
lixo, sentia-se um lixo. Sonhava pela terceira vez que se afogava, despertando
no meio da noite com um aperto no peito.
Ao
seu lado descansava um homem que ela conhecera muito bem pelas últimas duas
horas; e o melhor, pagava bem por seus serviços. Fazia isso praticamente todos
os dias, não se importava qual máscara eles utilizavam. Eram todos iguais, todo
carentes, todos sexualmente frustrados, suas frígidas esposas eram incapazes
até mesmo de ouvi-los em seus momentos de fraqueza. O “felizes para sempre”
sempre acabava, e ela estava ali, dando seus últimos minutos de felicidade para
mais um homem sem carinho.
Tinha
ela todo o amor pra dar, faltava-lhe todo o amor do mundo. Sozinha, suja, tinha
dificuldades para achar o seu lugar ao sol e se virava como podia. Parecia que
o mundo só funcionava corretamente para ela, já bem dizia o sábio. E quando
acabava, voltavam para seus lares de vidro, encenando mais um thriller
psicológico que ainda não enjoamos de ver. E ela ficava sozinha em seu próprio
mundo.
Mesmo
quando saia às ruas, era como se não houvesse ninguém: apesar dos homens
cobiçarem curvas tão belas e das mulheres invejarem seu ofício, sentia como se
seguisse no nada. Não tinha lugar entre essas pessoas, não pertencia a este
mundo. E a paz que ela queria ela só encontrava quando ia pra cama com aqueles
homens – e também algumas aventureiras que posteriormente se apaixonavam por
ela. Era sua forma de transcender, de sair desse lugar falido.
Cada
vez que se ligava a uma nova pessoa, compartilhava um pedaço de si, e nada
ganhava. As energias que recebia eram como veneno do escorpião mais letal, mas
era ali, durante aquelas horas, durante aqueles pequenos espasmos semelhantes à
morte, que se sentia perto de Deus. Melhor, era a própria Vênus encarnada, com
toques de Bacco em suas partes íntimas. Ela não fazia sexo, ela era puramente o
sexo: tudo nela exalava essa energia, que de tão intensa poderia despertar a
kundalini adormecida em toda uma nação.
Em
seu quarto, junto com lençóis de seda egípcia, velas, kama sutra, chicotes,
óleos aromáticos e preservativos reservas, ela possuía uma pequena caixa de
contas que sua mãe havia lhe dado quando era pequena ainda. Pobre mãe,
abandonara-lhe tão cedo sem querer, quis Deus que ela aprendesse a vida da
forma mais difícil possível.
Foi
durante uma dessas tardes quentes olhando o conteúdo secreto de sua caixinha
que ele apareceu: alto, forte, moreno, bem afeiçoado, e de um olhar
incrivelmente enigmático, era como se por trás daquele homem feito houvesse um
menino sedento por novas descobertas.
Ele
estava noivo há pouco tempo, mas sentia que ia de mal a pior. A mulher que
conhecera não era mais aquela que outrora o encantara, e pra piorar a situação,
sabia que ela estava muito envolvida com seu chefe, mas não tinha conseguido arranjar
uma forma de provar isso e acabar com essa dor de cabeça. “Mulheres, sempre
promíscuas, quando você dá sua vida, elas devoram seu coração”, pensava.
Quando
seus olhos repousaram sobre a jovem moça, de pele mulata, seios delicados,
cintura fina, quadris largos, e um olhar que o fazia se incendiar todo,
vislumbrou em apenas dois segundos todas as possibilidades. Era tudo que ele
queria e procurava no mundo, tinha essa sensação dentro si. Alguma coisa
naquela moça o atraia incondicionalmente, mas não sabia ao certo dizer o que.
Quanto
a ela, aquele era Deus se revelando em sua frente, sem mesmo que tivesse tirado
qualquer peça do corpo. Precisava conhecê-lo, invadi-lo, senti-lo por completo
pra saber por que se fascinava tanto, e de repente o mundo passava a ter cor, e
até mesmo aquela brisa quente fazia-a querer agarra-lo naquele exato instante.
Apresentaram-se,
estipulando os limites e regras, e valores, claro. E então começaram a longa
dança. Cada toque, cada beijo, cada mordida era como fogo tocando o gelo, nada
ficava no lugar. Sentiam como se já tivessem se amado antes, como se seus corpos
se encaixassem perfeitamente.
Ali,
realizando suas fantasias com uma desconhecida tão familiar sentiu-se completo
pelo primeira vez. Nunca alguém o desejou com tal vigor e quis fazer suas loucuras
mais insanas sem hesitar. Depois de 3 horas sem parar, descansavam lado a lado
exaustos.
A
mesma cena se repetiu todas as quintas por mais 4 meses a fio, até o momento em
que, investido de coragem, resolveu pedir o fim de seu noivado. ‘Aquela puta
que fosse feliz dando o c* pro chefe, se quisesse! Consumiu meu tempo, meu
dinheiro e meu amor.’
Livre,
poderia se render de vez àquela mulher misteriosa. Amaram-se como nunca se viu
neste mundo, amor com gostinho de saudade, e um pouco de confidencialidade. Ela
largou seu trabalho e dedicava-se a trabalhos caseiros, até porque, se tentasse
se deitar com outra pessoa, sentir-se-ia a pior mulher do mundo, e isso era um
novo começo: não queria mais ser lixo, agora era rainha em um mundo totalmente colorido.
O
problema da vida é que as estações são muito bem definidas, e depois de todo
verão quente, vem o outono para anunciar a chegada do inverno. E numa tarde
fria do outono, ele partiu, tinha medo da mulher que ela se tornara. Ela não
conseguia entender como ele podia querer ficar fora todos os dias, devia ter
outra mulher no caminho. Ele era dela e só dela, e apenas a imagem dele beijar
outra mulher levava-a à loucura. Precisava fazer qualquer coisa pra manter essa
felicidade que encontrou ao lado dele, e agora que partira, todos os momentos
felizes, escorriam lentamente por seus dedos.
Não
tinha mais pra onde seguir, uma vez que você conhece o céu, tudo que estiver
fora dele vira inferno. As cores e luzes que ele trouxe pra sua vida morreram
quando ele partiu. Comer não tinha mais qualquer sentido, qualquer coisa que
tocasse suas papilas era como água.
Sem
qualquer esperança, decidiu avistar a cidade, quem sabe olhando não o
encontraria andando, ou um sinal de onde poderia se humilhar e pedir pra
voltar. Olhou, olhou e depois de horas olhando pensou “realmente este mundo
mudou. Agora que as cores se foram, não vejo mais as cinzas do que se consumiu
mas sim as trevas que me dominam. Meu Deus, sinto sua falta. Por que me deste
asas, se depois me lançou ao sol?”
Fechando
os olhos, abriu os braços, e do alto de um prédio de 23 andares, se lançou para
os braços daquele Deus que conviveu com ela durante os poucos meses em que
esteve realmente viva.
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