Ainda
bem que não sou juíza deste mundo ou tudo estaria acabado. Já vivi o suficiente
para amar e odiar, confiar e ser traída, acreditar e ver meus sonhos e planos
se desfazerem na frente dos meus olhos. Agora, já não há muito a me
surpreender.
“Choro as
lágrimas de todo mundo
Na nossa
guerra interior
Eu morri
na outra noite
E aquelas
reminiscências de alegria e tragédia
O que
devo fazer com elas?
O DJ toca a mesma canção
Tenho
tanto a fazer
Tenho de
seguir em frente
Será que
esta amargura vai me largar um dia?
Me sinto o
rei da tristeza
O rei da
tristeza
Acho que
eu poderia sumir daqui
Vou
estragar meu futuro
se eu
ficar?
É só mais
um dia
para tudo
recomeçar
Só mais
um dia
e nada
acontece de bom
Choro as
lágrimas de todo mundo
Já paguei
pelos meus pecados futuros
Não há
nada nem ninguém
Que possa
me livrar disso
É só mais
um dia e nada acontece de bom
Eu sou o
rei
da
tristeza
Rei da
tristeza”
(Sade- King
Of Sorrow)
Vou contar a vocês a história mais triste que já ouvi: a história do cachorro
faminto e do rouxinol. À primeira vista, parece ser uma história tosca e
simples, mas como o propósito de um blog intitulado Simbolismo de uma alma
herege é exatamente de falar muito se deixar claro nada, há muito mais virtude
nesse texto do que pode-se ver com os olhos carnais. Afinal, as boas mensagens
ficam nas entrelinhas, e apenas o verdadeiro receptor de uma mensagem é capaz
de decodificá-la, já bem dizia o receptor.
Era uma vez um velho cachorro que vivia perambulando pelas ruas, à procura de
carinho e de satisfazer sua fome. Já tinha sido abandonado por tantas famílias:
ele era um vira-lata, não servia pra guardar a casa, não queria brincar com as
crianças, mal sabia latir quando era preciso, tudo que queria na vida era ser
alimentado e poder ficar na sua, sem muito trabalho. Folgado e egoísta que era,
tinha tudo pra fazer qualquer família feliz, mas sempre lhe faltou atitude pra
resolver isso e exercer seu papel de cachorro. Por isso, ia pulando de casa em
casa sem se ligar ou criar afeto por nada nem ninguém.
Um belo
dia, certa família encontrou-o nas ruas, todo sujo, pulguento, magro e doente,
e resolveram levá-lo para sua casa para cuidar dele. Em poucos dias, aquele
cachorro já estava em seu estágio inicial, limpo, mas sempre na dele. Foi
quando olhou pra cima e teve o maior vislumbre de sua vida.
No alto da coluna havia uma gaiola presa, com um belíssimo rouxinol a cantar
baixinho, numa quase adoração irracional ao sol. Diferente de outros, esse
rouxinol possuía penas bem escuras, quase negras, com um brilho azulado nas
pontas; não queria saber de problemas, apenas existia. Tinha tudo que
precisava para sobreviver, sol, comida,
água e uma casa confortável.
O cachorro não pode acreditar em tanta beleza que via! Precisava se aproximar, tocar, ter aquele
rouxinol para si de qualquer forma, mesmo que não soubesse exatamente o porquê.
Bolou um plano infalível: todos os dias afinco ficava na ponta das pontas, pra
colocar um pequeno pedaço do pão que recebia de seus donos para o rouxinol. Se
conseguisse conquistar a confiança dele assim, conseguiria também se aproximar
e falar de suas intenções.
O rouxinol, que possuía um extinto de sobrevivência natural, sempre fugia
quando um cachorro daquele tamanho pulava e colocava aquele focinho enorme
perto de sua privacidade. Mas depois de vários dias a mesma cena se repetindo,
resolveu arguir o cachorro sobre o motivo de fazer aquilo.
“Nunca na vida encontrei coisa tão bela, e desde o momento que te vi, sabia que
precisava tê-lo apenas pra mim.”
Começou a aceitar os agrados do cachorro
gradativamente, e conversava com ele todos os dias. Já não tinha mais tanto
medo, e algumas vezes até saia de sua gaiola, descia pela cordinha e ficava
sobre as costas do cachorro enquanto ele estava deitado ao chão. Aquele
cachorro era a primeira criatura com quem teve um contato mais próximo:
apaixonou-se. Estranhava quando o cachorro não aparecia ou demorava pra ir à
gaiola. Percebeu que depois de uns dias, o cachorro já não ia com frequência mais
conversar com ele, e que quando estava lá, não o ouvia, nem queria ouvir seus
cantos.
O
pássaro, que agora passava mais tempo sozinho, isolado na gaiola, foi entrando
em depressão, já não tinha mais vontade de cantar, mesmo com o mais belo nascer
do sol. E o cachorro voltou a ficar na dele, como se nunca tivesse esbarrado com
aquele rouxinol.
Num ato desesperado, o rouxinol saiu da
gaiola e foi até a casa do cachorro implorar pra que ele voltasse a ser como
antes: ao cair, bateu uma asa no chão e se machucou, prendeu uma das patas na
mangueira, e, cambaleante, ainda se sujou nas fezes do cachorro que jaziam
perto da casinha. Começou a cantar um triste canto baixinho, quase uma súplica,
um grito interior, pois já não tinha mais voz nem mesmo para gritar com ele.
Nisso, o cachorro resolveu sair da casa e ver o que estava acontecendo e acabou
pisoteando o pobre rouxinol. Olhou pra ele e tentou salvá-lo, não fazia ideia do
que estava acontecendo: não sabia o que era amor, então nunca seria capaz de
amar!
Saiu do
bico do rouxinol uma das frases que jamais me esquecerei: “antes de você, eu só
existia, e sou grato por tê-lo conhecido. Foi meu amigo, meu parceiro e dei todo
o meu amor que tinha em mim até que perdesse seu encanto, continuaria todos os
dias a lhe oferecer meu canto. Agora, nesses segundos finais, eu te amo e te
odeio, te amo porque me mostrou o que era viver, e te odeio, porque como um
raio veio, me desestabilizou e tirou tudo de mim. Levou me coração, e, por tudo
que um dia já tivemos, te peço uma última coisa: leve também meu corpo, acabe
com essa dor infindável, devore-me”.
O cão, arrependido de ter trazido tamanho sofrimento a uma criatura tão pura, resolveu
ceder a esse último desejo, e engoliu o pobre passarinho. Enquanto ia passando
por seus dentes, descendo por sua garganta, lembrou-se da primeira vez que o
viu e então caiu em si do sacrilégio que havia cometido. Carregaria aquela
culpa pelos restos de seus dias...
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