quinta-feira, 18 de julho de 2013

Devore-me, por favor!

  Ainda bem que não sou juíza deste mundo ou tudo estaria acabado. Já vivi o suficiente para amar e odiar, confiar e ser traída, acreditar e ver meus sonhos e planos se desfazerem na frente dos meus olhos. Agora, já não há muito a me surpreender.

“Choro as lágrimas de todo mundo
Na nossa guerra interior
Eu morri na outra noite
E aquelas reminiscências de alegria e tragédia
O que devo fazer com elas?

O DJ toca a mesma canção
Tenho tanto a fazer
Tenho de seguir em frente
Será que esta amargura vai me largar um dia?
Me sinto o rei da tristeza
O rei da tristeza

Acho que eu poderia sumir daqui
Vou estragar meu futuro
se eu ficar?
É só mais um dia
para tudo recomeçar
Só mais um dia
e nada acontece de bom

Choro as lágrimas de todo mundo
Já paguei pelos meus pecados futuros
Não há nada nem ninguém
Que possa me livrar disso
É só mais um dia e nada acontece de bom

Eu sou o rei
da tristeza
Rei da tristeza”
 (Sade- King Of Sorrow)

  Vou contar a vocês a história mais triste que já ouvi: a história do cachorro faminto e do rouxinol. À primeira vista, parece ser uma história tosca e simples, mas como o propósito de um blog intitulado Simbolismo de uma alma herege é exatamente de falar muito se deixar claro nada, há muito mais virtude nesse texto do que pode-se ver com os olhos carnais. Afinal, as boas mensagens ficam nas entrelinhas, e apenas o verdadeiro receptor de uma mensagem é capaz de decodificá-la, já bem dizia o receptor.
  Era uma vez um velho cachorro que vivia perambulando pelas ruas, à procura de carinho e de satisfazer sua fome. Já tinha sido abandonado por tantas famílias: ele era um vira-lata, não servia pra guardar a casa, não queria brincar com as crianças, mal sabia latir quando era preciso, tudo que queria na vida era ser alimentado e poder ficar na sua, sem muito trabalho. Folgado e egoísta que era, tinha tudo pra fazer qualquer família feliz, mas sempre lhe faltou atitude pra resolver isso e exercer seu papel de cachorro. Por isso, ia pulando de casa em casa sem se ligar ou criar afeto por nada nem ninguém.

  Um belo dia, certa família encontrou-o nas ruas, todo sujo, pulguento, magro e doente, e resolveram levá-lo para sua casa para cuidar dele. Em poucos dias, aquele cachorro já estava em seu estágio inicial, limpo, mas sempre na dele. Foi quando olhou pra cima e teve o maior vislumbre de sua vida.

  No alto da coluna havia uma gaiola presa, com um belíssimo rouxinol a cantar baixinho, numa quase adoração irracional ao sol. Diferente de outros, esse rouxinol possuía penas bem escuras, quase negras, com um brilho azulado nas pontas; não queria saber de problemas, apenas existia. Tinha tudo que precisava  para sobreviver, sol, comida, água e uma casa confortável.

  O cachorro não pode acreditar em tanta beleza que via! Precisava se aproximar, tocar, ter aquele rouxinol para si de qualquer forma, mesmo que não soubesse exatamente o porquê.

Bolou um plano infalível: todos os dias afinco ficava na ponta das pontas, pra colocar um pequeno pedaço do pão que recebia de seus donos para o rouxinol. Se conseguisse conquistar a confiança dele assim, conseguiria também se aproximar e falar de suas intenções.
  O rouxinol, que possuía um extinto de sobrevivência natural, sempre fugia quando um cachorro daquele tamanho pulava e colocava aquele focinho enorme perto de sua privacidade. Mas depois de vários dias a mesma cena se repetindo, resolveu arguir o cachorro sobre o motivo de fazer aquilo.
“Nunca na vida encontrei coisa tão bela, e desde o momento que te vi, sabia que precisava tê-lo apenas pra mim.”
  Começou a aceitar os agrados do cachorro gradativamente, e conversava com ele todos os dias. Já não tinha mais tanto medo, e algumas vezes até saia de sua gaiola, descia pela cordinha e ficava sobre as costas do cachorro enquanto ele estava deitado ao chão. Aquele cachorro era a primeira criatura com quem teve um contato mais próximo: apaixonou-se. Estranhava quando o cachorro não aparecia ou demorava pra ir à gaiola. Percebeu que depois de uns dias, o cachorro já não ia com frequência mais conversar com ele, e que quando estava lá, não o ouvia, nem queria ouvir seus cantos.

  O pássaro, que agora passava mais tempo sozinho, isolado na gaiola, foi entrando em depressão, já não tinha mais vontade de cantar, mesmo com o mais belo nascer do sol. E o cachorro voltou a ficar na dele, como se nunca tivesse esbarrado com aquele rouxinol.

  Num ato desesperado,  o rouxinol saiu da gaiola e foi até a casa do cachorro implorar pra que ele voltasse a ser como antes: ao cair, bateu uma asa no chão e se machucou, prendeu uma das patas na mangueira, e, cambaleante, ainda se sujou nas fezes do cachorro que jaziam perto da casinha. Começou a cantar um triste canto baixinho, quase uma súplica, um grito interior, pois já não tinha mais voz nem mesmo para gritar com ele. 
  Nisso, o cachorro resolveu sair da casa e ver o que estava acontecendo e acabou pisoteando o pobre rouxinol. Olhou pra ele e tentou salvá-lo, não fazia ideia do que estava acontecendo: não sabia o que era amor, então nunca seria capaz de amar!


Saiu do bico do rouxinol uma das frases que jamais me esquecerei: “antes de você, eu só existia, e sou grato por tê-lo conhecido. Foi meu amigo, meu parceiro e dei todo o meu amor que tinha em mim até que perdesse seu encanto, continuaria todos os dias a lhe oferecer meu canto. Agora, nesses segundos finais, eu te amo e te odeio, te amo porque me mostrou o que era viver, e te odeio, porque como um raio veio, me desestabilizou e tirou tudo de mim. Levou me coração, e, por tudo que um dia já tivemos, te peço uma última coisa: leve também meu corpo, acabe com essa dor infindável, devore-me”.

  O cão, arrependido de ter trazido tamanho sofrimento a uma criatura tão pura, resolveu ceder a esse último desejo, e engoliu o pobre passarinho. Enquanto ia passando por seus dentes, descendo por sua garganta, lembrou-se da primeira vez que o viu e então caiu em si do sacrilégio que havia cometido. Carregaria aquela culpa pelos restos de seus dias...

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