sexta-feira, 19 de julho de 2013

Hey porn star!

Eu sei de tutten! E ainda por cima no aniversário do próprio pai!
Ahhh Samael, foste luz um dia, mas quis se igualar ao Altíssimo e hoje é fraco como um mortal.
Achou mesmo que poderia enganar uma deusa? Espere então pelo doce veneno do escorpião!





"Bury all your secrets in my skin
Come away with innocence,
And leave me with my sins
The air around me still feels like a cage
And love is just a camouflage for what resembles rage again...

So if you love me, let me go.
And run away before I know.
My heart is just too dark to care.
I can't destroy what isn't there.
Deliver me into my fate -
If I'm alone I cannot hate
I don't deserve to have you...
My smile was taken long ago
If I can change I hope I never know

I still press your letters to my lips
And cherish them in parts of me that savor every kiss
I couldn't face a life without your light
But all of that was ripped apart...
When you refused to fight

So save your breath, I will not hear.
I think I made it very clear.
You couldn't hate enough to love.
Is that supposed to be enough?
I only wish you weren't my friend.
Then I could hurt you in the end.
I never claimed to be a saint...
My own was banished long ago
It took the death of hope to let you go

So break yourself against my stones
And spit your pity in my soul
You never needed any help
You sold me out to save yourself
And I won't listen to your shame
You ran away - you're all the same
Angels lie to keep control...
My love was punished long ago
If you still care, don't ever let me know


If you still care, don't ever let me know..."

(Snuff - Slipknot)


What am I going to do with you?
Everything...

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Devore-me, por favor!

  Ainda bem que não sou juíza deste mundo ou tudo estaria acabado. Já vivi o suficiente para amar e odiar, confiar e ser traída, acreditar e ver meus sonhos e planos se desfazerem na frente dos meus olhos. Agora, já não há muito a me surpreender.

“Choro as lágrimas de todo mundo
Na nossa guerra interior
Eu morri na outra noite
E aquelas reminiscências de alegria e tragédia
O que devo fazer com elas?

O DJ toca a mesma canção
Tenho tanto a fazer
Tenho de seguir em frente
Será que esta amargura vai me largar um dia?
Me sinto o rei da tristeza
O rei da tristeza

Acho que eu poderia sumir daqui
Vou estragar meu futuro
se eu ficar?
É só mais um dia
para tudo recomeçar
Só mais um dia
e nada acontece de bom

Choro as lágrimas de todo mundo
Já paguei pelos meus pecados futuros
Não há nada nem ninguém
Que possa me livrar disso
É só mais um dia e nada acontece de bom

Eu sou o rei
da tristeza
Rei da tristeza”
 (Sade- King Of Sorrow)

  Vou contar a vocês a história mais triste que já ouvi: a história do cachorro faminto e do rouxinol. À primeira vista, parece ser uma história tosca e simples, mas como o propósito de um blog intitulado Simbolismo de uma alma herege é exatamente de falar muito se deixar claro nada, há muito mais virtude nesse texto do que pode-se ver com os olhos carnais. Afinal, as boas mensagens ficam nas entrelinhas, e apenas o verdadeiro receptor de uma mensagem é capaz de decodificá-la, já bem dizia o receptor.
  Era uma vez um velho cachorro que vivia perambulando pelas ruas, à procura de carinho e de satisfazer sua fome. Já tinha sido abandonado por tantas famílias: ele era um vira-lata, não servia pra guardar a casa, não queria brincar com as crianças, mal sabia latir quando era preciso, tudo que queria na vida era ser alimentado e poder ficar na sua, sem muito trabalho. Folgado e egoísta que era, tinha tudo pra fazer qualquer família feliz, mas sempre lhe faltou atitude pra resolver isso e exercer seu papel de cachorro. Por isso, ia pulando de casa em casa sem se ligar ou criar afeto por nada nem ninguém.

  Um belo dia, certa família encontrou-o nas ruas, todo sujo, pulguento, magro e doente, e resolveram levá-lo para sua casa para cuidar dele. Em poucos dias, aquele cachorro já estava em seu estágio inicial, limpo, mas sempre na dele. Foi quando olhou pra cima e teve o maior vislumbre de sua vida.

  No alto da coluna havia uma gaiola presa, com um belíssimo rouxinol a cantar baixinho, numa quase adoração irracional ao sol. Diferente de outros, esse rouxinol possuía penas bem escuras, quase negras, com um brilho azulado nas pontas; não queria saber de problemas, apenas existia. Tinha tudo que precisava  para sobreviver, sol, comida, água e uma casa confortável.

  O cachorro não pode acreditar em tanta beleza que via! Precisava se aproximar, tocar, ter aquele rouxinol para si de qualquer forma, mesmo que não soubesse exatamente o porquê.

Bolou um plano infalível: todos os dias afinco ficava na ponta das pontas, pra colocar um pequeno pedaço do pão que recebia de seus donos para o rouxinol. Se conseguisse conquistar a confiança dele assim, conseguiria também se aproximar e falar de suas intenções.
  O rouxinol, que possuía um extinto de sobrevivência natural, sempre fugia quando um cachorro daquele tamanho pulava e colocava aquele focinho enorme perto de sua privacidade. Mas depois de vários dias a mesma cena se repetindo, resolveu arguir o cachorro sobre o motivo de fazer aquilo.
“Nunca na vida encontrei coisa tão bela, e desde o momento que te vi, sabia que precisava tê-lo apenas pra mim.”
  Começou a aceitar os agrados do cachorro gradativamente, e conversava com ele todos os dias. Já não tinha mais tanto medo, e algumas vezes até saia de sua gaiola, descia pela cordinha e ficava sobre as costas do cachorro enquanto ele estava deitado ao chão. Aquele cachorro era a primeira criatura com quem teve um contato mais próximo: apaixonou-se. Estranhava quando o cachorro não aparecia ou demorava pra ir à gaiola. Percebeu que depois de uns dias, o cachorro já não ia com frequência mais conversar com ele, e que quando estava lá, não o ouvia, nem queria ouvir seus cantos.

  O pássaro, que agora passava mais tempo sozinho, isolado na gaiola, foi entrando em depressão, já não tinha mais vontade de cantar, mesmo com o mais belo nascer do sol. E o cachorro voltou a ficar na dele, como se nunca tivesse esbarrado com aquele rouxinol.

  Num ato desesperado,  o rouxinol saiu da gaiola e foi até a casa do cachorro implorar pra que ele voltasse a ser como antes: ao cair, bateu uma asa no chão e se machucou, prendeu uma das patas na mangueira, e, cambaleante, ainda se sujou nas fezes do cachorro que jaziam perto da casinha. Começou a cantar um triste canto baixinho, quase uma súplica, um grito interior, pois já não tinha mais voz nem mesmo para gritar com ele. 
  Nisso, o cachorro resolveu sair da casa e ver o que estava acontecendo e acabou pisoteando o pobre rouxinol. Olhou pra ele e tentou salvá-lo, não fazia ideia do que estava acontecendo: não sabia o que era amor, então nunca seria capaz de amar!


Saiu do bico do rouxinol uma das frases que jamais me esquecerei: “antes de você, eu só existia, e sou grato por tê-lo conhecido. Foi meu amigo, meu parceiro e dei todo o meu amor que tinha em mim até que perdesse seu encanto, continuaria todos os dias a lhe oferecer meu canto. Agora, nesses segundos finais, eu te amo e te odeio, te amo porque me mostrou o que era viver, e te odeio, porque como um raio veio, me desestabilizou e tirou tudo de mim. Levou me coração, e, por tudo que um dia já tivemos, te peço uma última coisa: leve também meu corpo, acabe com essa dor infindável, devore-me”.

  O cão, arrependido de ter trazido tamanho sofrimento a uma criatura tão pura, resolveu ceder a esse último desejo, e engoliu o pobre passarinho. Enquanto ia passando por seus dentes, descendo por sua garganta, lembrou-se da primeira vez que o viu e então caiu em si do sacrilégio que havia cometido. Carregaria aquela culpa pelos restos de seus dias...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Conto das Mil Faces (Am I Free?) - Parte 4

Acordo quase caindo da minha cama. Que sonhos doidos ando tendo!
Decido levantar e ir ao banheiro, será difícil voltar a dormir depois de tantas coisas. De frente para o espelho me encaro e vejo como perdi parte do brilho que tinha antes. Tanta coisa dando errada, tantas frustrações e dores de cabeça, quase não conseguia dormir nas últimas noites. Estou piorando e não encontro o que fazer pra mudar isso. Estou desfalecendo, sou uma explosão de sensações. Tantas emoções de uma vez só estão me enlouquecendo. E o homem, que tanto amo, está tão distante agora! Por que me viciou a esse ponto e depois me larga como um cão abandonado?
Se um dia morrer e acordar, igual aos sonhos que tive, terei certeza de que ainda serei a mesma. Todas são facetas de mim, são máscaras que eu penduro e uso a todo instante. Eu sou um mosaico humano, sou música, sou canção solta no ar... e espero te encontrar mais uma vez, com esse mesmo gostinho de saudade...




“Eu estava no inverno de minha vida – e os homens que conheci pela estrada foram meu único verão. À noite caía no sono com visões de mim mesma dançando, rindo e chorando com eles. Três anos estando em uma turnê mundial sem fim e minhas memórias deles eram as únicas coisas que me sustentavam, e meus únicos momentos felizes de verdade. Eu era uma cantora, não muito popular, que uma vez teve sonhos de se tornar uma bela poeta – mas por uma infeliz série de eventos viu aqueles sonhos riscados e divididos como um milhão de estrelas no céu da noite, que desejei de novo e de novo – brilhantes e quebradas. Mas eu não me importava porque sabia que era necessário conseguir tudo que você sempre quis e então perder para saber o que liberdade realmente é.
Quando as pessoas que eu conhecia descobriram o que estive fazendo, como eu tinha vivido – me perguntaram o porquê. Mas não há utilidade em falar com pessoas que tem um lar. Eles não sabem o que é procurar segurança em outras pessoas, já que lar é onde você descansa sua cabeça.
Sempre fui uma garota incomum, minha mãe me disse que eu tinha uma alma de camaleão. Sem senso de moral apontando para o norte, sem personalidade fixa. Apenas uma indecisão interior tão extensa e tão ondulante quanto o oceano. E se eu disser que não planejei para que tudo fosse desse jeito, estaria mentindo – porque nasci para ser a outra mulher. Pertenci a ninguém – que pertenceu a todo mundo, que não teve nada – que quis tudo com uma vontade por cada experiência e uma obsessão por liberdade que me aterrorizava a ponto de não poder sequer falar sobre tudo – e me levou a um ponto de loucura que tanto me deslumbrava quanto me deixava tonta.
Toda noite eu costumava rezar para que pudesse encontrar meu povo – e finalmente encontrei – na estrada aberta. Não tínhamos nada a perder, nada a ganhar, nada que desejávamos mais – exceto fazer de nossas vidas uma obra de arte.
VIVA RÁPIDO. MORRA JOVEM. SEJA SELVAGEM. E SE DIVIRTA
Eu acredito no país que a América costumava ser. Acredito na pessoa que quero me tornar, acredito na liberdade da Estrada aberta. E meu lema é o mesmo de sempre.
*Acredito na gentileza de estranhos. E quando estou em guerra comigo mesma – dirijo. Apenas dirijo.*
Quem é você? Você está em contato com todas as suas fantasias mais sombrias?
Você criou uma vida para si mesma onde é livre para experimentá-la?
Eu criei.
Sou maluca pra caralho. Mas pelo menos sou livre...”


 (*) Qualquer dia desses eu continuo os contos dessa seção.

Conto das Mil Faces (Am I Free?) - Parte 3

Acordou novamente suada. Era um lixo, sentia-se um lixo. Sonhava pela terceira vez que se afogava, despertando no meio da noite com um aperto no peito.
Ao seu lado descansava um homem que ela conhecera muito bem pelas últimas duas horas; e o melhor, pagava bem por seus serviços. Fazia isso praticamente todos os dias, não se importava qual máscara eles utilizavam. Eram todos iguais, todo carentes, todos sexualmente frustrados, suas frígidas esposas eram incapazes até mesmo de ouvi-los em seus momentos de fraqueza. O “felizes para sempre” sempre acabava, e ela estava ali, dando seus últimos minutos de felicidade para mais um homem sem carinho.
Tinha ela todo o amor pra dar, faltava-lhe todo o amor do mundo. Sozinha, suja, tinha dificuldades para achar o seu lugar ao sol e se virava como podia. Parecia que o mundo só funcionava corretamente para ela, já bem dizia o sábio. E quando acabava, voltavam para seus lares de vidro, encenando mais um thriller psicológico que ainda não enjoamos de ver. E ela ficava sozinha em seu próprio mundo.
Mesmo quando saia às ruas, era como se não houvesse ninguém: apesar dos homens cobiçarem curvas tão belas e das mulheres invejarem seu ofício, sentia como se seguisse no nada. Não tinha lugar entre essas pessoas, não pertencia a este mundo. E a paz que ela queria ela só encontrava quando ia pra cama com aqueles homens – e também algumas aventureiras que posteriormente se apaixonavam por ela. Era sua forma de transcender, de sair desse lugar falido.
Cada vez que se ligava a uma nova pessoa, compartilhava um pedaço de si, e nada ganhava. As energias que recebia eram como veneno do escorpião mais letal, mas era ali, durante aquelas horas, durante aqueles pequenos espasmos semelhantes à morte, que se sentia perto de Deus. Melhor, era a própria Vênus encarnada, com toques de Bacco em suas partes íntimas. Ela não fazia sexo, ela era puramente o sexo: tudo nela exalava essa energia, que de tão intensa poderia despertar a kundalini adormecida em toda uma nação.
Em seu quarto, junto com lençóis de seda egípcia, velas, kama sutra, chicotes, óleos aromáticos e preservativos reservas, ela possuía uma pequena caixa de contas que sua mãe havia lhe dado quando era pequena ainda. Pobre mãe, abandonara-lhe tão cedo sem querer, quis Deus que ela aprendesse a vida da forma mais difícil possível.
Foi durante uma dessas tardes quentes olhando o conteúdo secreto de sua caixinha que ele apareceu: alto, forte, moreno, bem afeiçoado, e de um olhar incrivelmente enigmático, era como se por trás daquele homem feito houvesse um menino sedento por novas descobertas.
Ele estava noivo há pouco tempo, mas sentia que ia de mal a pior. A mulher que conhecera não era mais aquela que outrora o encantara, e pra piorar a situação, sabia que ela estava muito envolvida com seu chefe, mas não tinha conseguido arranjar uma forma de provar isso e acabar com essa dor de cabeça. “Mulheres, sempre promíscuas, quando você dá sua vida, elas devoram seu coração”, pensava.
Quando seus olhos repousaram sobre a jovem moça, de pele mulata, seios delicados, cintura fina, quadris largos, e um olhar que o fazia se incendiar todo, vislumbrou em apenas dois segundos todas as possibilidades. Era tudo que ele queria e procurava no mundo, tinha essa sensação dentro si. Alguma coisa naquela moça o atraia incondicionalmente, mas não sabia ao certo dizer o que.
Quanto a ela, aquele era Deus se revelando em sua frente, sem mesmo que tivesse tirado qualquer peça do corpo. Precisava conhecê-lo, invadi-lo, senti-lo por completo pra saber por que se fascinava tanto, e de repente o mundo passava a ter cor, e até mesmo aquela brisa quente fazia-a querer agarra-lo naquele exato instante.
Apresentaram-se, estipulando os limites e regras, e valores, claro. E então começaram a longa dança. Cada toque, cada beijo, cada mordida era como fogo tocando o gelo, nada ficava no lugar. Sentiam como se já tivessem se amado antes, como se seus corpos se encaixassem perfeitamente.
Ali, realizando suas fantasias com uma desconhecida tão familiar sentiu-se completo pelo primeira vez. Nunca alguém o desejou com tal vigor e quis fazer suas loucuras mais insanas sem hesitar. Depois de 3 horas sem parar, descansavam lado a lado exaustos.
A mesma cena se repetiu todas as quintas por mais 4 meses a fio, até o momento em que, investido de coragem, resolveu pedir o fim de seu noivado. ‘Aquela puta que fosse feliz dando o c* pro chefe, se quisesse! Consumiu meu tempo, meu dinheiro e meu amor.’
Livre, poderia se render de vez àquela mulher misteriosa. Amaram-se como nunca se viu neste mundo, amor com gostinho de saudade, e um pouco de confidencialidade. Ela largou seu trabalho e dedicava-se a trabalhos caseiros, até porque, se tentasse se deitar com outra pessoa, sentir-se-ia a pior mulher do mundo, e isso era um novo começo: não queria mais ser lixo, agora era rainha em um mundo totalmente colorido.
O problema da vida é que as estações são muito bem definidas, e depois de todo verão quente, vem o outono para anunciar a chegada do inverno. E numa tarde fria do outono, ele partiu, tinha medo da mulher que ela se tornara. Ela não conseguia entender como ele podia querer ficar fora todos os dias, devia ter outra mulher no caminho. Ele era dela e só dela, e apenas a imagem dele beijar outra mulher levava-a à loucura. Precisava fazer qualquer coisa pra manter essa felicidade que encontrou ao lado dele, e agora que partira, todos os momentos felizes, escorriam lentamente por seus dedos.
Não tinha mais pra onde seguir, uma vez que você conhece o céu, tudo que estiver fora dele vira inferno. As cores e luzes que ele trouxe pra sua vida morreram quando ele partiu. Comer não tinha mais qualquer sentido, qualquer coisa que tocasse suas papilas era como água.
Sem qualquer esperança, decidiu avistar a cidade, quem sabe olhando não o encontraria andando, ou um sinal de onde poderia se humilhar e pedir pra voltar. Olhou, olhou e depois de horas olhando pensou “realmente este mundo mudou. Agora que as cores se foram, não vejo mais as cinzas do que se consumiu mas sim as trevas que me dominam. Meu Deus, sinto sua falta. Por que me deste asas, se depois me lançou ao sol?”
Fechando os olhos, abriu os braços, e do alto de um prédio de 23 andares, se lançou para os braços daquele Deus que conviveu com ela durante os poucos meses em que esteve realmente viva.


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Conto das Mil Faces (Am I Free?) - Parte 2

Abriu os olhos: não era mais uma simples garotinha jazendo nos braços de um Deus tão humanamente cruel, mas sim uma bela índia, de lábios de mel e cabelos mais negros que asa da graúna, a repousar a cabeça nas folhas de jandaia próximo ao rio da tribo.
Precisava voltar logo, não era mais momento de dormir. Os planetas estavam prestes a se alinhar, os sacerdotes precisavam de sua delícia divina, a Jurema, para se comunicarem com seus deuses e pedir bênçãos à terra. Não era cristã mais, nem precisava de livros sagrados: seus rituais eram sentidos, não pensados, e seu conhecimento era passado de boca a boca, por várias gerações, à todas as virgens escolhidas pelos próprios deuses para servi-los. Sim, os deuses escolhiam suas amadas, e não o contrário. Fora marcada em seu nascimento com um desenho em sua pele, algo que lembrava a mistura de um dragão com um peixe.
Era tipicamente filha dos peixes e exatamente perfeita para o culto: dona de uma extrema sensibilidade, tanto exterior, quanto interior; sonhadora; generosa e benevolente. A mais pura dentre todas as mulheres da tribo, sem sombra de dúvida.
Foi durante a volta para a tribo que escutou um barulho, provavelmente próximo de março, quando as festividades que reúnem todas as tribos e todos os guerreiros travam batalhas por um tesouro misterioso, que ela o avistou. Melhor, antes mesmo que o visse, fugiu do alcance de suas mãos, afinal, quem era aquele desconhecido que se aproximava com tanta malícia em seus olhos? Surpresa e assustada, fez o que sabia melhor, acertou-o com o que tinha em mãos e se afastou com medo de ele tentar nova investida.
Martins era um dos Morenos espanhóis sem Terras que aqui chegaram; e assim como, um a um, entraram na terra, Martins sem tê-rra entrava sem aviso na vida de nossa Ismália. Mesmo com o golpe não reagiu e conquistou o coração de nossa bela índia desavisada.
Levou-o para sua tribo, que foi recebido em grande festa. Era um prazer a todos ali ter em seu meio alguém que fosse filho dos deuses! Depois da grande recepção, Martins precisava retornar ao seu grupo, o que trouxe grande decepção ao coração intacto de nossa índia. “Seria saudades da noiva que deixou para trás?”
Não, o amor de Martins por Ismália era sincero, não. Amaram-se como poderiam, a um alto preço, mas tudo vale a pena em nome do amor, não? Fugiram dali, casaram-se e semearam um grande amor, amor que começou doce, mas que trouxe consigo a dor.
Assim como a lua tem seu lado negro, Martins era um guerreiro, e como valente que era, precisava de um grande ideal. A vida calma e tranquila ao lado daquela que prometera seu amor e lealdade não o fascinava mais, a rotina era um longo comercial chato passando em seus olhos. Com o passar do tempo, entrou em depressão, admirando fantasmas de suas glórias passadas, de olimpíadas que participou, das festas da corte, sem dar muita atenção à índia.
Na primeira oportunidade que teve de voltar ao campo de guerra, não hesitou e partiu com seus companheiros, deixando Ismália sozinha para trás sem nem ao menos se despedir dela. Como aviso, fincou uma flecha ao chão, sabendo que, quando Ismália avistasse, entenderia o sinal de sua partida. Entrelaçou nela uma violeta, era a flor favorita dos dois.
De fato, quando a Índia dos lábios de mel foi se banhar no dia seguinte, viu aquela caixinha em formato de corações flechados, entendeu o significado, e colocou-se a chorar desesperadamente. Retornava todos os dias, esperando qualquer contato, qualquer sinal de que seu amado estava retornando ao seu lar, sem qualquer sucesso. A tristeza preencheu o coração que antes era altar dos supremos deuses.
Ismália perdeu, por Martins, sua pureza, sua família, seu propósito. E quando estava prestes a morrer de saudades pelo marido que havia viajado e demorava a retornar, com o fruto do amor e da dor em seus braços, teve seu último vislumbre enlouquecido em vida: imaginou que havia uma torre, e no topo estava seu amado Martins. E em meio a todo esse sonho, tentou alcança-lo nos céus vendo seu reflexo no mar; e na fúria de buscar o que tanto lhe fazia falta, alcançou os céus de seus antepassados.

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Conto das Mil Faces (Am I Free?) - Parte I

“To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.”

(Shakespeare)


E lá estava aquele velho castelo, erguido desde os primórdios de sua existência, com suas muralhas imponentes e um Dragão chinês de água guardando seu maior tesouro, em terras tão longínquas, tão baixas, que seria necessário muito esforço de quem quisesse encontrá-lo.
Pelas paredes gélidas formadas de suor e sangue, era possível sentir uma quase inaudível melodia: uma menininha, princesa, fada, ninfeta, a girar e cantar. Cantava coisas que os mortos um dia viram, cantava coisas que o fim do mundo sonhava. Uma menininha que nascera do acaso, sem qualquer aviso prévio: não tinha lugar no mundo, tinha apenas aquele castelo – o mundo devia de ser um lugar muito perigoso para alguém de coração tão puro e singelo.
Desde nova sabia fazer tudo sozinha, nunca tivera ninguém para ensiná-la sobre a vida e sobre a morte, ela apenas existia. Também, dificilmente existiria na Terra pessoa capaz de vencer tantos obstáculos para chegar até ela, muito menos de caráter tão íntegro e tão determinado a transpor limites humanamente intransponíveis. Era preciso ser Deus.
Mas para essa pobre menininha, que viria a ser Deus? Se nunca, nem mesmo seus criadores, que a elevaram do barro, e do sopro de vida, foram capazes de vencer tantas camadas, muito menos seriam capazes de alertá-la sobre os perigos de encarar a face Divina, por mais viciante que ela viesse a ser. Moisés viu apenas as costas e foi suficiente para ficar reluzente por dias. Se ela, pobre mortal descrente, encarasse Deus face a face, provavelmente explodiria em glória. Ele era Perfeito demais para guardar para si mesma. Não, viveria sozinha ali, eternamente. O terço pendurado em sua cama era apenas de enfeite, e a Bíblia, seu livro favorito de contos absurdos que lia para adormecer.
De repente, e não mais que de repente, as muralhas que guardam o castelo começam a estremecer: Deus vem ao encontro da pobre garotinha. O que teria visto o Criador nela? Tão frágil, tão pequena, tão simples, tão pobre, tão solitária? Iria amá-la ou matá-la? Mal sabia ela de sua existência, que diria como agir em sua presença? Decidiu ficar e ver se morreria, de qualquer forma não seria tão ruim assim.
Elohim, o Forte divino; Adonai, sou Tua serva e és meu Mestre; El Elvon, o mais alto; El Roi, tudo vê; El Shaddai, Deus Todo-Poderoso; El Olam, Tu és Eterno; Yahweh, o grande EU SOU.
Deus era eterno, o que significava que Ele não teve início e que a Sua existência jamais iria cessar. Ele era imortal, infinito. imutável, o que queria dizer que Ele não mudaria, por mais que gostaria que isso fosse possível (minha esperança então não seria minha sentença); Deus era, é e sempre será incomparável, o que quer dizer que não há ninguém como Ele em obras ou ser, Ele é inigualável e perfeito. Deus é inescrutável, o que significa que Ele é imensurável, inencontrável, impossível de ser inteiramente entendido. Mas cá estava ele, derrubando toda a minha fortaleza, onipotente que era, apenas para me encontrar em minha pequenez.
‘Em toda sua sabedoria e conhecimento, sabia que não tinha mais motivos pra continuar neste mundo, por isso veio ao meu encontro”, pensou ela. Reine sobre mim, seja soberano.
Poucos minutos após o primeiro estrondo, lá estava ele aos pés da porta da torre mais alta. Se houvesse alguém ali, poderia tocar com as mãos o frio que ela sentia em sua barriga, mas não havia, nem nunca houve. Tremia só pela ideia de finalmente conhecer alguém diferente da imagem que ela via no espelho, ainda mais alguém com tamanha glória.
Abriu a porta da câmara mais secreta de si: era Ele, envolto por uma luz inexplicável, e músicas celestiais, acompanhado de seres de outros mundos. Quando viu aquela pele morena reluzente não pensou duas vezes, e se atirou de corpo e alma para os braços de seu amado. Ele era o Noivo, e ela sua Igreja pessoal.
"Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo."

Cruel, Injusto, Mesquinho, Enganador, Diabo (Acusador), Adversário, Anjo Caído, Ahriman ou Angra Mainyu (espírito mau), Samael (veneno de Deus), Orgulhoso, Teimoso, Autodestrutivo, Invejoso, Tolo, Fraco, Ignorante, Desligado, Sefirot Geburah, Vingativo, Fanático, Cego, Surdo, Louco.

“Ó Lúcifer! Tu te separaste voluntária e desdenhosamente do céu onde o sol se afogava em sua claridade, para sugar com teus próprios raios os campos incultos da noite.
Tu brilhas quando o sol se deita, e teu olhar cintilante precede o despertar do dia.
Tu cais para subir de novo; experimenta a morte para melhor conhecer a vida.
Tu és a gloria dos antigos do mundo, a estrela da tarde para a verdade, a bela Estrela da Manhã.”

Enquanto caia, viu ele levantar uma lâmina em câmera lenta. Não era seu Deus: seu Salvador mouro, na realidade, era seu pior carrasco. Morria ali inocente de qualquer crime. Quis Deus levá-la porque invejou seu coração puro, era deusa ela também, deusa do amor, do zelo e da bondade, tudo que um dia ele nunca foi. Queria, como demônio que era, subir ao seu trono e ser semelhante à Altíssima. Destruiu todas as suas barreiras não por amor, mas pela crueldade que era combustível de seu espírito corrompido.
E já nos últimos segundos de sua vida, ouviu seu Divino Destruidor dizer-lhe: Mene, Mene, Tequel, Ufarsim. Mas a única falta que tinha era de afeto real, que não teve nem mesmo em sua morte.
“O anjo decaído é, pois aquele, que desde o princípio recusou amar; ele não ama e é todo o seu suplico; ele não dá, e é sua miséria; ele não sofre, e é seu vazio; ele não morre e é o seu exílio.”
Era ela também um anjo quebrado, era ela sua Lilith virginal, sua eterna consorte.


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domingo, 14 de julho de 2013

Como diria mestre HULK...

Eu encarei a bruxa. Sim, essa mulher horrorosa de rosto arredondado e nariz de vilão Spheniscidaético do Batman (dos filmes bem antigos, assim como eu), que jogou um feitiço neste rio que não o permite virar mar, e que afeta até mesmo a mim, me prendendo nessas águas turbulentas que apesar de todas as condições favoráveis, nunca se acalmam.
Bruxa estúpida que só sabe conversar por letras desconhecidas e inferiores - porque o submundo humano é realmente baixo, já dizia a mestra Exatas - contou-me dos tempos em que ela era dona daquelas terras e aquele rio estava lá apenas para ela. Ardilosa que é, nunca me contou porque as perdeu, mas faz questão de sempre mostrar todas as medalhas que dali um dia recebera. Mas como nem tudo que reluz é ouro e nem todo mal é para a perdição, ela me alertou sobre os perigos residentes nesse afluente e eu, tola e cega, não ouvi.
O vento encantando - ou seria amaldiçoado - que ela me mandou dizia sobre coisas que eu já havia reparado, contudo sem qualquer certeza de que fosse verídico:
"(...) mais uma vez me fazendo de vítima, exagerada e maluca bla bla bla só eu estou enxergando tudo isso não é? (...) fugindo do conflito mais uma vez? Eu tenho medo eu sinto medo eu tenho insegurança eu luto contra isso e (...)"
Ahh, pobre bruxa maldita: antes de ser maga, és humana também, e como humana que somos, por vezes criamos deuses à nossa imagem e semelhança, simplesmente para satisfazer nosso próprio ego. E nós, filhas de Byron e dos Anjos, monstras de escuridão e rutilância, do negro e do rubro, caímos na maior das falácias: acreditar em um Deus que está muito mais preocupado em converter os pagãos e os gentios à sua adoração do que cuidar de sua mais preciosa ovelha. E depois que ela se perde e se afoga no rio, Deus lamenta pelo que poderia ter feito e não fez. Cretino que é nem mesmo é capaz de aceitá-la no paraíso, permite que ela vague pelo mundo como alma penada sem rumo e ainda é capaz de perguntar a ela - perdoe-me pela heresia - na maior cara de madeira: "se precisar de qualquer coisa". Deus não ama seus fiés, ele é idiota e egoísta, como nós. Mas como nos colocamos na posição de submissas e de adoradoras fervorosas, sabemos pelo menos canalizar nossas adorações para o local "certo".
Deus é o criador de todas as coisas, inclusive de tal insegurança. Isso o alimenta, pois inseguras, corremos cada vez mais para sua cruz, e clamamos com lágrimas nos olhos, que para Ele parece ser oferta agradável, como o primogênito perfeito dos cordeiros. Sim, ele nos quer frágeis e fracas, porque é em nossa fraqueza que ele nos faz forte. Diz para nós "Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o SENHOR, teu Deus, é contigo por onde quer que andares." (Josué 1:9), mas logo em seguida nos prova na casa do oleiro e nos quebra feito barro sem qualquer piedade estampada em sua gloriosa face. A indiferença por sua cria me assombra, sinceramente, cara bruxa.
Acho que nossos destinos não serão tão diferentes, bruxa, não pelo menos enquanto sua aura permanecer aqui. Enquanto você continuar a me assombrar, eu irei afundar cada vez mais nas águas gélidas - e tudo que eu queria um banho escaldante, merda - e em breve também serei mais uma pedra no fundo desse rio, pedra de altar e adoração, mas fria como pedra.
E se deu pra entender, então eu também errei...
Ou melhor, errei.. pois essas reticências caminham para o.